Quem entra no espaço de Canto da Teia não observa: é capturado.
A soleira não é apenas física, é sensorial - uma passagem silenciosa que se abre na fronteira subtil
entre o desenho como traço e o desenho como destino. É uma linha que não representa, mas
sugere; que não descreve, mas invoca. Como uma frase sem pontuação, que continua a desenrolar-
se para além da página.
Hugo Bernardo, Roger Paulino e Simão Mota Carneiro apresentam um corpo de trabalho como
desenho expandido que perdeu o centro para se tornar sistema, organismo, ressonância. Nenhum
dos três se impõe ou retrai: deriva de um equilíbrio em tensão, como partitura executada a seis mãos
num só fôlego. A matéria aqui não é dada, é procurada; o traço não é imposto, é escutado. A linha é
princípio e abismo. Entra em dicotomia, é fio de Ariadne, mas também labirinto: guia e perda.
Hugo Bernardo trabalha na fronteira entre o gesto e o tecido. No bordado a linha abandona o papel
e ganha espessura: torna-se corpo, sutura, respiração. O seu cortinado é pele permeável,
membrana onde a luz hesita antes de passar. Cada ponto é um acto de escuta - uma escrita paciente
que não pretende fechar-se mas revelar-se na delicadeza do fio. Em suspensão, no lugar onde o
silêncio dessa espera se cose, lentamente, flutuante, eclodem figuras como mar ou vida.
Simão Mota Carneiro encontra deriva na gravura. Linhas que são mapas, rastos de pensamento que
se grava e apaga. Na pulsação desse instante, na memória do erro: cada traço enquanto tentativa
de permanência efémera. Linhas curvas animadas de humor subtil e vibração em tensão. Um jogo
de espera ou desafio que se transforma numa experiência gestual que ao torcer, mistura ou aparenta
escapar da imagem.
Roger Paulino trabalha a matriz como território de fricção. O linóleo torna-se superfície de
resistência e revelação: o corte é ferida e caminho. A impressão não se repete – transforma-se. Há
no seu gesto algo de arqueológico, como quem procura a forma escondida sob a pele da matéria.
As suas matrizes são corpos em repouso, mas carregados de energia latente, prontas a reverberar
no toque da tinta. Cada impressão é uma vibração que ecoa, discreta, no espaço partilhado da teia.
Como escreveu Clarice Lispector, “não se pode falar do que se sente, fala-se das margens do que
se sente”, e é precisamente dessas margens que se fala neste espaço, habitado por transparências
e sombras leves. Cada gesto é um porto provisório, cada forma uma passagem instável. Nada é
decoração, nada é ornamento: cada elemento parece flutuar num estado de gravidade alterada,
como coreografia cega, absolutamente necessária.
Os materiais, frágeis, dúcteis, porosos, transportam a memória do toque, do tempo, da espera. Não
se trata de construir, mas de guardar: vestígios, respirações, intenções invisíveis. Uma tensão
mínima, como a de uma teia de aranha sob a luz oblíqua.
E, no fundo, tudo se sustenta neste paradoxo: uma teia que aprisiona e ao mesmo tempo liberta.
Que envolve, mas não restringe. Que não produz imagens, mas experiências de proximidade e
distância. É um canto, sim, mas mudo, afónico, como aquele que se ouve nas salas internas do
próprio corpo. Um coro sussurrado, que impõe respeito mesmo sem dirigir a palavra.
Neste sentido, Canto da Teia é um acto poético desenhado a várias mãos, onde o desenho deixa de
ser instrumento para se tornar condição. Uma necessidade que antecede a forma, e que talvez -
como dizia Henri Michaux - “não procura dizer, mas ser”. O espaço do andar de baixo já não é um
contentor, mas um diafragma: um lugar de passagem entre o que se vê e o que se faz. Aí, onde a
linha se faz corpo e o corpo se faz espera. E é nesse momento que a obra acontece.
Federica Elena (Curadora)
Não há mapa / Só o passo / O chão cede um pouco, / Mas aguenta o rombo / Uma linha / tensa como desejo, / fina como
espera, / forte como o fio de Ariadne / sob o peso da manhã / Não há voz / Mas há um murmúrio antigo, / que vem das paredes,
/ um eco, quase lembrança / O corpo escuta / O espaço responde, / num idioma de luz partida / Tudo é quase / Quase linha,
/ quase forma, / quase gesto, quase som / Quem entra, sente / E segue / Sem saber por onde, / mas sabendo que é por ali –
Canto de Baixo - Federica Elena